Eu prefiro sonhar e perceber que foi um sonho do que viver e ter que fingir que sonhei.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Afinal o Leão venceu
Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece?
Vai escorregando...
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livres as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço...
Milla Borges
O desarranjo de certa máquina te ensina a paciência.
O afastamento de um companheiro terá sido o meio de te acordar as energias adormecidas, para que te desenvolvas em ação mais ampla.
O dinheiro que te era devido e ainda na recebeste é um convite da vida que trabalhes mais e melhor.
A doença controlada ou vencida é uma lição que te auxilia a guardar a própria saúde.
Quando a crise te busque, lembra-te de que o obstáculo está simplesmente instando contigo para que recomeces a própria tarefa, outra vez.
(Livro: Neste instante. Francisco Cândido Xavier por Emmanuel)
(texto recebido de Cristiano de Almeida)
Entende?
SOBRE O SILÊNCIO
...
(uma estória gelada)
Olá, tudo bem? Então, quer tomar um suco, uma cerveja, um vinho? Podemos não tomar nada. Aliás, eu quero tomar um gim, mas não precisa me acompanhar. Faz frio, né? Sim, o inverno se aproxima, mas, tá tudo tão diferente, pensei que a temperatura não fosse mudar tanto. É, eu sei, ainda que não venha no tempo certo, o frio sempre vem.
Também estou sem pressa, quero falar um pouco sobre a vida, sobre as alegrias da vida ou das pausas que essa alegria dá na vida. É, eu podia te mandar um e-mail, ligar, mas caminhar a noite pela cidade traz mais inspiração.
Acho que é o mistério que a noite traz, ás vezes não vemos com clareza o rosto dos outros e estão tão todos sempre muito cobertos por casacos e cachecóis, medimos sua alegria pela largura do sorriso e o brilho que brota dos olhos.
Na verdade eu não tenho nada muito importante para dizer a você. São os problemas que se repetem como num ciclo vicioso de desencontro com nós mesmos e, ligeiros encontros com os outros e mais outros e outros. Ás vezes sinto sua falta. Às vezes esqueço que você existe; ás vezes só existo quando me vejo em você.
Meu sorriso reflete no seu sorriso, minha alegria se confunde com sua alegria, mas, não é sobre isso que eu quero falar. Eu queria que sorrisse pra mim. Não! Não esse sorriso sem cor, aquele sorriso que faz seus olhos se fecharem um pouco é, mais ou menos assim. Eu tô bem, esteja bem. Eu? Não! Eu não conseguiria, tá meio oco aqui dentro, acho que a minha emoção foi passear em outro lugar, acho que resolveu me deixar um pouco só pra saber ao certo como lidar com tudo isso.
Você nunca soube, talvez eu nunca tenha conseguido explicar, sempre achei que, o que fazia sentido tinha que ser sentido, não precisava ser narrado nem tão pouco explicado, mas não deu muito certo. Pode até me acusar, me chamar de bobo, imaturo, mas, medo eu nunca tive, apesar de todo nervosismo e falta de palavras.. Quando te abracei, quando te beijei, eu estava lá inteiro, estava completo; estava contigo de pensamento e desejo. Não, você entendeu tudo errado, não quero te ter, te possuir ou ser teu dono. Não sou dono nem de mim. Sou dono dos meus momentos e dos meus encontros, não me encerro em mim e vou me espalhando, pois me multiplico e vivo.
Me conta um segredo? Já contou isso pra alguém? Como é isso pra você? É, tem coisas que são confusas mesmo. Não eu não me importo, nunca vivi uma situação parecida, mas não me importo com isso. Um segredo meu? Ah é um jogo? é uma curiosidade? Peraí me deixa pensar...Eu uma vez joguei uma pedra pra cima e fiquei olhando, quase fui pro hospital. Ei, tá rindo do que? Eu sei que não é um grande segredo, mas quem é que sai contado por ai que faz uma coisa besta assim? Outro? Então tá: Eu amo você.
silêncio.
ainda aí?
Calma, não precisa falar besteira, não estou te pedindo que me ame. Você quer me contar outro segredo? Vamos ficar a noite toda conversando sobre nossos segredos? Só mais um, certo? Porque não me disse isso antes? Eu não ainda não sei ser diferente, não era essa minha intenção, só não posso te pedir desculpas porque fiz sem culpas, fiz porque quis, porque desejei. É, eu não pensei em você, talvez seja esse um dos meus grandes problemas, mas o tempo cuidará disso pra gente.
Agora faz mais frio do que antes. Você quer que eu diga o que fazer com o amor que eu sinto por você? Não! não é uma decisão minha, não sou eu quem escolhe. Eu sei o que sinto e onde guardo. Não fique preocupada com isso. Você tem tantas outras histórias, tantos outros desejos.
Não, eu não sou tão legal assim, mas o que é que quer que eu faça? Que eu chore, grite, me jogue aos seus pés e peça que volte e que fique? Por quanto tempo? Uma hora, um mês, dois minutos? Não, não! Seu pouco não me interessa nem um pouco, o que eu quero não é a compaixão. Minha parte eu quero em tesão e, se não puder me dar, que fique tudo bem. Que fique tranquila. Ei, não diga o que não sente e que não fique com meias palavras como eu. De tudo eu posso suportar, menos as palavras ditas assim.
É, eu prefiro seu silêncio. Aliás, o silêncio sempre é a melhor resposta. Ele não nos compromete, nos deixa lá em cima do muro sem ação observando o movimento natural das coisas.
Eu preciso ir. Sim, a gente se fala, a gente sempre se fala, não é? Quer me dizer alguma coisa?
Mais silêncio.
entendo.
Vem cá, me dá um abraço?
Não, não quero seu beijo hoje, é só um abraço.
Você tem sempre razão. Você me dá um cigarro?
O tempo já correu demais.
Sinto que esta madrugada será bem fria.Cenário
Uma taberna a beira mar,
Eu na mesa dos fundos,
Uma caneca de vinho
E um copo de cachaça.
Na mesa bem ao lado,
Um pirata mercenário;
Caídos no balcão do bar,
Dois bêbados imundos;
E vendendo carinho,
Uma puta sem graça
Finge cantar um fado.
Que para você escrevo,
Fingindo sentir desdém,
Em um papel gordurento,
Uma breve carta de adeus
Deste alguém que existiu.
Imagino o que você sente,
Lendo-a com certo enlevo,
Ainda me querendo bem;
E uma ponta de lamento
Virá aos pensamentos seus
Por lembrar que desistiu.
De carta, cenário, sentir...
Para que serve tudo isso
Se não passa de ilusão?
Não há vinho ou taberna;
Nem leitura, tampouco!
Não há nada que suponho.
De nada me serve fingir.
Preciso livrar-me disso
E por meus pés no chão.
Ou a dor que me governa
Irá deixar-me mais louco.
Quem concebe tal concepção?
Foge isto ao raciocínio curto!
E se a ele foge, contigo parece!
Não cabes no curto. No fugaz!
És como as mechas douradas
Que emolduram este belo sorriso.
És baiana sem o ser! És o ser!
Aborígine loira? Quem imagina ser?
Menina, moleca, mulher, mãe! O ser!
E eu quero (exijo) ver esta barriga!
Quero a cada instante e mudança.
Quero e quero e quero querer!
Acompanhar este fruto de você!
Não por ser curioso! Não por banalidades!
Não por qualquer coisa menor
Que o amor de verdade!
Como uma raposa frente à criança,
Vens e cativas!
Então, querida, desenha, a mim,
Passo a passo, este carneiro!
Amo (não duvides),
A caixa em que ele se forma.
Desenha-me o teu carneiro!
Este que amaremos
Quando o deres forma!
Não quero voltar a ser jovem hoje!
Não me enquadraria na juventude!
Não saberia (pois nunca soube) ser banal.
Não me enturmaria; Não teria tribo.
Seria eu um solitário átomo desgarrado,
Sem conceber como virar matéria.
Não há em mim elétrons de bullying,
Prótons do mais vazio preconceito,
Nêutrons para neutralizar a razão.
Tampouco seria eu uma célula banal
A compor um corpo sem cabeça,
A sinopse do ridículo absoluto
De fazer sinapses homogêneas
E sem a menor chance do genial.
Isso que eu vejo, que ouço, que leio,
Me faz dispensar toda a vontade
Que me despertaram, lá um dia,
Dorian Gray, Peter Pan, Shangrilá!
Não quero a fonte de Ponce de Leon,
Não quero mais ser o highlander final.
Quero mais é buscar o que existe,
O que insiste e persiste em vingar
Em meio à força banal do banal sucesso,
À descartabilidade do imediatismo,
À essa busca de ser célebre por um célebre segundo.
Não! Não quero mais voltar a ser jovem!
Quero mais é buscar nessa juventude atual
Os poucos jovens que ainda podem salvar o mundo
Dessa pasmaceira vulgar e desinteressante.
Esta agora é a minha vontade mais sincera,
O meu desejo mais profundo!
Doces sabores de momentos idos...
Então o paladar da alma se aguça
E segue degustando a saudade,
A vontade de reviver o tempo ido.
Mas à boca da memória vem também
Os gostos amargos do que passou...
Aí a alma trava o fundo da garganta
E tenta rejeitar este sentimento,
Sem vontade de reviver o tempo ido.
O certo é que da boca da memória,
Caia doce ou amargo em minh’alma,
Surge sempre um breve gosto de sal,
Do mar das ondas de toda uma vida,
Que ligeiro brota aos olhos meus...
E, como liquefazendo a alma minha,
Escorre-me pela face envelhecida!
Nem sei se pelo que não mais tenho,
Ou se por aquilo que jamais terei...
À boca da memória também surgem
Sabores que eu jamais provei!
Escorregaram pelas sarjetas desses anos,
Ou as grades do tempo prenderam meus planos?
De onde veio tal tristeza incontida?
Quais sentimentos causaram tantos danos?
De onde surgiu esta solidão sofrida?
Por que a alegria foi-me proibida?
Quem há de responder esses meus desenganos?
Não atendo a quem à minha porta bate.
Também deixei de abrir qualquer janela.
Nessa casa não entrará quem me maltrate.
A mim, o que resta, é viver nessa cela
Em que o tempo de pena não há quem date.
Eu, a solidão e esta saudade dela!

No mais recôndito canto
Do meu coração
É o amor que me destes
Para em segredo guardar.
E em sigilo permanecerá,
Até o dia que permitas
Que eu, ao mundo, diga
Que tu me amas;
Ou até mais não haver
Como revelá-lo,
Pois, escondido,
Ele tenha afundado,
Junto com seu cofre,
Ao fundo do mar da morte!
Então, ele, para sempre,
Estará seguro;
E, eu, para a eternidade,
Terei o seu amor!





